Àqueles que se
aproveitaram do meu desespero e da minha vulnerabilidade para me empurrarem
para um lugar onde nunca consegui viver em paz:
Não vos escrevo
por dramatismo, nem para pedir piedade. Escrevo porque há verdades que precisam
de ser ditas sem filtro: desde que me empurraram para este sítio, a minha vida
encolheu. O que para vocês pode ter sido uma decisão conveniente, uma manobra ou
uma forma de exercer controlo, para mim transformou-se num desgaste diário,
contínuo e profundamente humilhante. E não foi apenas um lugar que me impuseram
— também me afastaram da única família que tenho aqui em Inglaterra,
cortando-me da única proximidade e apoio que ainda me restavam.
O meu rancor e a
minha raiva não vêm apenas do lugar em si. Vêm, sobretudo, do facto de não ter
meios suficientes para sair daqui. Vêm da consciência cruel de saber exatamente
o que me faz mal e, ainda assim, continuar presa porque me faltam condições para
mudar. Essa impotência corrói. Essa dependência pesa. E essa prisão sem grades
consome mais do que aquilo que se vê por fora.
Vocês não vivem o
que eu vivo quando saio do trabalho já em sobressalto, com o coração na
garganta, a torcer para encontrar um lugar ao pé de casa. Não sabem o que é
organizar a vida inteira em função de um estacionamento, evitar coisas simples
como ir às compras de manhã por medo de voltar carregada e não ter onde deixar
o carro, e acabar obrigada a estacionar longe, como se até o mais básico me
tivesse sido roubado. Há um cansaço específico em viver assim: o de sentir que
até a rotina mais banal vem sempre acompanhada de tensão, castigo e falta de
liberdade.
Desde que me
empurraram para este inferno, sinto que deixei de viver com vontade. Passei a
cumprir dias em vez de os viver. Passei a arrastar-me por obrigações, a fazer o
que é preciso, mas sem ânimo, sem descanso e sem ligação real à minha própria
vida. Este lugar não me tirou apenas conforto; tirou-me energia, prazer,
esperança e partes inteiras de quem eu era.
Se algum dia
quiserem reduzir isto a exagero, mau feitio ou incapacidade minha de me
adaptar, poupo-vos esse esforço: eu sei perfeitamente o que este lugar me fez,
e sei também como aqui vim parar. Houve desespero do meu lado, houve
vulnerabilidade, e houve aproveitamento do vosso. É essa verdade que fica. Não
me roubaram apenas paz. Roubaram-me tempo de vida, saúde emocional e a
possibilidade de me sentir segura no sítio onde sou obrigada a existir.
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