terça-feira, 22 de setembro de 2026

História Ficticia mas real em muitos aspectos

   

A luz do corredor do quinto andar nunca apaga completamente. Para quem vê de fora, o hospital à noite é um edifício silencioso, mas, para quem veste a túnica azul, a madrugada tem o seu próprio ritmo — um compasso medido pelo bipe discreto dos monitores e pelo som suave dos sapatos de borracha contra o linóleo brilhante.

Ester terminava de anotar a última medição de sinais vitais quando o relógio da enfermaria marcou quatro da manhã. Trabalhava ali há doze anos. Já vira noites de caos absoluto, emergências em cadeia onde o tempo parecia encolher, e noites de um silêncio denso, quase palpável, em que as horas custavam a passar.

Naquela noite, a sua equipa partilhava o turno com a Rita, uma jovem enfermeira que tinha começado há poucas semanas. Rita ainda trazia no olhar aquela mistura de entusiasmo absoluto e o receio constante de falhar — um traço que Ester reconhecia bem, porque também já o tinha carregado.

— Tudo calmo no quarto 512? — perguntou Ester, aproximando-se do posto de enfermagem com duas chávenas de chá morno.

Rita levantou os olhos do computador, limpando o cansaço do rosto com um sorriso rápido.

— Sim. O Sr. Antunes acabou por adormecer por volta das três. Estava com muita ansiedade por causa da cirurgia de amanhã. Ficou a contar-me sobre a horta que tem no Alentejo até o remédio fazer efeito.

Ester assentiu, entregando-lhe uma das chávenas.

— A enfermagem é isso, Rita. Metade do nosso trabalho é a técnica, a medicação correta à hora certa, a atenção ao detalhe clínico. A outra metade... é ouvir a história da horta até a ansiedade passar.

Instantes depois, a luz de chamada do quarto 508 acendeu-se no painel, acompanhada por um sinal sonoro suave. Era D. Clara, uma doente de 82 anos a recuperar de uma pneumonia complicada. Rita levantou-se prontamente.

— Deixa estar, eu vou — disse Rita, ajustando o estetoscópio ao pescoço.

Ester observou-a caminhar pelo corredor. Pouco depois, decidiu ir até lá para dar apoio. Ao chegar à porta entreaberta, viu Rita ajoelhada junto à cama de D. Clara, a ajeitar-lhe os cobertores e a segurar-lhe a mão. Não havia nenhuma urgência clínica; era apenas a solidão da madrugada que por vezes pesa mais do que a dor física. Rita escutava com paciência, falando num tom sereno que parecia desacelerar o próprio tempo dentro daquele quarto.

Minutos mais tarde, quando Rita saiu, encontrou Ester a sorrir-lhe de forma discreta.

— Fizeste exatamente o que era preciso — disse a enfermeira mais experiente. — Na faculdade ensinam-nos a tratar a doença. Aqui no terreno, aprendemos a cuidar da pessoa.

Às sete da manhã, a luz do sol começou a entrar pelas janelas do corredor, dissipando a sombra da noite. Chegava a equipa do turno do dia, fresca e pronta para a passagem de modelos e tarefas. Ester e Rita entregaram o relatório detalhado de cada doente — as febres que baixaram, os parâmetros estabilizados, as palavras de conforto que foram precisas.

Ao saírem juntas pelas portas do hospital, o ar da manhã estava fresco. Tinham os pés cansados e o peso de doze horas de trabalho contínuo nos ombros, mas carregavam também a certeza invisível de quem fez a diferença na vida de alguém no momento em que essa pessoa mais precisava.

Afinal, a enfermagem não era apenas uma profissão; era a arte silenciosa de estar presente.

 


 

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