Há coisas que, por muito que tentemos manter a serenidade, nos reviram o estômago e nos esgotam a paciência. Ouvir o recente episódio do podcast do Expresso sobre a Fundação Calouste Gulbenkian foi, sem tirar nem pôr, uma dessas experiências.
A História — aquela que se baseia em factos concretos e não em cartilhas ideológicas da moda — diz-nos o seguinte: Calouste Sarkis Gulbenkian, um cidadão de origem arménia, escolheu Portugal como o seu refúgio seguro. Viveu os últimos 13 anos da sua vida no nosso país e, em sinal de profunda gratidão e visão, deixou-nos uma das mais extraordinárias instituições filantrópicas e culturais da Europa. Foi ele quem a imaginou, foi ele quem a fundou e foi a sua imensa fortuna que a pagou. Ponto final.
Mas parece que para o jornalismo moderno — que muitas vezes roça o "jornalixo" de cliques — os factos históricos são apenas um detalhe incómodo.
Ouvir aquele podcast é assistir a uma tentativa patética de reescrever a história por parte de quem não construiu absolutamente nada. Somos obrigados a ouvir "especialistas", que nem sequer eram nascidos quando Gulbenkian respirava, a tentar desconstruir a vida e o legado de um homem singular. Mas o verdadeiro momento de clareza surge quando prestamos atenção a quem tem o microfone na mão.
De um lado, temos o atrevimento inaceitável de quem vem de fora. Vozes de sotaque estrangeiro que, carregadas de uma arrogância inexplicável, julgam ter o direito de apagar a memória, ditar regras e criticar um legado de um país que não lhes pertence. É a personificação perfeita da expressão "cuspir no prato onde se come". Usufruem da cultura e da segurança que o país lhes oferece, mas acham-se no direito de reescrever a nossa história à sua imagem e semelhança.
Do outro lado — e este é o lado que verdadeiramente enoja —, temos a subserviência confrangedora dos "tugas" presentes. Jornalistas e comentadores portugueses que, num esforço desesperado para parecerem intelectuais e alinhados com as tendências do momento, acenam que sim com a cabeça e dão palco a este desrespeito. Em vez de defenderem o nosso património e a memória de um benemérito que nos deixou uma riqueza incalculável, preferem curvar-se perante quem nos insulta.
A Fundação Calouste Gulbenkian chama-se assim por um motivo muito simples: foi criada por ele. A História não se apaga, não se altera e não se reescreve só porque um grupo de iluminados decide que o passado já não lhes serve.
Quem se sente incomodado com a história de Gulbenkian tem um remédio muito simples: que trabalhe, que junte a sua própria fortuna e que crie a sua própria fundação. Até lá, exijam o que quiserem nos vossos podcasts, mas tirem as mãos e tenham respeito por quem efetivamente deixou obra feita.


