Tentaram quebrar-me a casca antes mesmo de ser fruto,
Fizeram do meu berço um eco de aço e de luto.
Bateram no peito, na carne, na alma que mal nascia,
Como se o sopro da vida fosse algo que se media.
Mas o corpo, esse templo que eu não compreendo,
Fechou as feridas que o mundo vinha abrindo e trazendo.
Cresci no escuro, sob o peso do soco e do açoite,
E quando a dor era tanta que chamei pela noite,
Quando eu mesma ordenei ao meu sangue que parasse,
E pedi à minha sombra que de mim se afastasse...
O mistério que me habita disse: "Ainda não."
E segurou o meu sopro na palma da mão.
Há uma força em mim que não me pertence por inteiro,
Um guardião teimoso, um espírito guerreiro,
Que recusa a cova, que nega o fim do caminho,
Mesmo quando andei na tempestade, a carregar o espinho.
Não sei por que razão a morte me errou o alvo,
Nem que milagre secreto é este que me mantém salvo.
Só sei que se o próprio abismo não me conseguiu conter,
É porque a minha história ainda tem muito para escrever.






