domingo, 12 de julho de 2026

O Legado de Gulbenkian e a Arrogância do Revisionismo

 


Há coisas que, por muito que tentemos manter a serenidade, nos reviram o estômago e nos esgotam a paciência. Ouvir o recente episódio do podcast do Expresso sobre a Fundação Calouste Gulbenkian foi, sem tirar nem pôr, uma dessas experiências.

A História — aquela que se baseia em factos concretos e não em cartilhas ideológicas da moda — diz-nos o seguinte: Calouste Sarkis Gulbenkian, um cidadão de origem arménia, escolheu Portugal como o seu refúgio seguro. Viveu os últimos 13 anos da sua vida no nosso país e, em sinal de profunda gratidão e visão, deixou-nos uma das mais extraordinárias instituições filantrópicas e culturais da Europa. Foi ele quem a imaginou, foi ele quem a fundou e foi a sua imensa fortuna que a pagou. Ponto final.

Mas parece que para o jornalismo moderno — que muitas vezes roça o "jornalixo" de cliques — os factos históricos são apenas um detalhe incómodo.

Ouvir aquele podcast é assistir a uma tentativa patética de reescrever a história por parte de quem não construiu absolutamente nada. Somos obrigados a ouvir "especialistas", que nem sequer eram nascidos quando Gulbenkian respirava, a tentar desconstruir a vida e o legado de um homem singular. Mas o verdadeiro momento de clareza surge quando prestamos atenção a quem tem o microfone na mão.

De um lado, temos o atrevimento inaceitável de quem vem de fora. Vozes de sotaque estrangeiro que, carregadas de uma arrogância inexplicável, julgam ter o direito de apagar a memória, ditar regras e criticar um legado de um país que não lhes pertence. É a personificação perfeita da expressão "cuspir no prato onde se come". Usufruem da cultura e da segurança que o país lhes oferece, mas acham-se no direito de reescrever a nossa história à sua imagem e semelhança.

Do outro lado — e este é o lado que verdadeiramente enoja —, temos a subserviência confrangedora dos "tugas" presentes. Jornalistas e comentadores portugueses que, num esforço desesperado para parecerem intelectuais e alinhados com as tendências do momento, acenam que sim com a cabeça e dão palco a este desrespeito. Em vez de defenderem o nosso património e a memória de um benemérito que nos deixou uma riqueza incalculável, preferem curvar-se perante quem nos insulta.

A Fundação Calouste Gulbenkian chama-se assim por um motivo muito simples: foi criada por ele. A História não se apaga, não se altera e não se reescreve só porque um grupo de iluminados decide que o passado já não lhes serve.

Quem se sente incomodado com a história de Gulbenkian tem um remédio muito simples: que trabalhe, que junte a sua própria fortuna e que crie a sua própria fundação. Até lá, exijam o que quiserem nos vossos podcasts, mas tirem as mãos e tenham respeito por quem efetivamente deixou obra feita.

 

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Eu estou tão farta de tudo

 As dores continuam a massacrar-me diariamente e todo o momento. Não sei o que se passa dentro do meu corpo e nem dentro da minha cabeça, apenas sinto esta ansiedade, e raiva descomunais, ainda bem que não instintos assassinos, porque se não eu já teria cometido alguma loucura, em vez disso eu cá vou sobrevivendo em meio a toda esta raiva que me está lentamente a destruir.

As dores atacam-me cada vez com mais e maior intensidade, dores nas costas, dores nos tornozelos, dores nos ombros, afetam até o meu caminhar, parece que tenho uma liga de aço a prender-me as pernas pelas ancas dificultando-me os passos, parece que cada perna uma tonelada. eu estou cansada e desmotivada

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

​O Brilho Eterno de Ivone Silva: A Mulher que Redefiniu o Nosso Palco

 ​O Brilho Eterno de Ivone Silva: A Mulher que Redefiniu o Nosso Palco

​Há nomes que passam pelo mundo artístico e há forças da natureza que o transformam para sempre. Ivone Silva foi, sem sombra de dúvida, essa força. Falar dela não é apenas recordar uma atriz que nos fazia sorrir; é evocar uma das figuras mais gigantescas, inteligentes e vanguardistas da cultura portuguesa do século XX. A sua partida precoce, em 1987, deixou um vazio que o tempo teima em não preencher, mas o seu legado permanece intacto na nossa memória coletiva.

​Olho para a tela vazia e pergunto-me onde começa a memória de uma mulher que foi tudo no palco. Ivone não era apenas uma atriz; era um estado de alma que nos entrava pela casa dentro sem pedir licença, deixando-nos um sorriso nos lábios e uma pontada de espanto no pensamento. Dizem os registos que tudo começou a sério ali pelo Parque Mayer, na boémia dos anos sessenta. Uma Lisboa de ruelas escuras, de fumo de cigarro no ar e de teatros a rebentar pelas costuras. Imagino-a a chegar, jovem, com aquele olhar que parecia ver mais além do que os outros. Quando pisou as tábuas do Teatro ABC pela primeira vez, o público não viu apenas mais uma atração da Revista. Viu a eletricidade. Havia uma inteligência fina na forma como ela se movia, um segredo partilhado entre os seus olhos e quem a via da plateia.

​Ali, naquele pedaço de Lisboa que cheirava a festa e a suor, a Ivone começou a desenhar o seu império. Não precisava de grandes cenários. Bastava-lhe o gesto exato, a pausa no momento certo e aquela ironia tão nossa, tão portuguesa, que nos fazia rir da nossa própria pequenez.

​Mas houve um dia em que a Ivone percebeu que o teatro era demasiado pequeno para o tamanho do seu génio, e a televisão fez o resto. Entrou-nos pela sala dentro nas noites de sábado, numa altura em que o país se colava ao ecrã para ver o Sabadabadu. E foi aí que a magia se tornou imortal. Surgia ao lado do Camilo de Oliveira, e não eram apenas dois atores a fazer uma rábula; eram o espelho de um Portugal profundo, castigado, mas que trazia na ponta da língua uma graça desalinhada. Ela, com aquela cabeleira despenteada, o xaile meio caído e o olhar perdido da "Agostinha", conseguia a proeza de nos fazer rir à gargalhada enquanto, no fundo, nos partia o coração com a solidão daquela personagem. "Ai Agostinho, ai Agostinha..." — o desabafo corria o país na segunda-feira seguinte. Mas logo a seguir, com uma facilidade que só os eleitos têm, desfazia o boneco, limpava a maquilhagem e aparecia-nos altiva, elegante, a ditar regras com aquela voz que comandava a atenção de qualquer um: "Com um simples vestido preto, eu nunca me comprometo". Era essa a sua dualidade: num minuto era o povo na sua forma mais crua; no minuto seguinte era a sofisticação em pessoa.

​Olhar para aquela televisão antiga era, para mim, muito mais do que ver um programa. Era ver o mundo a acontecer. Eu era muito jovem quando ela partiu, quase uma miúda a descobrir a vida, mas recordo com uma nitidez impressionante como a Ivone Silva se tornou a minha grande companheira de caminho. Durante cerca de nove anos, aquele ecrã deixava de ser apenas um objeto na sala e transformava-se num portal para os palcos que, para mim, valiam o mundo inteiro.

​Eu via pouco, talvez não compreendesse ainda todas as entrelinhas da política ou da sátira social da época, mas o pouco que captava inundava-me a alma de cultura, saber e poesia. Havia ali uma densidade que me prendia. Os meus olhos transportavam-se para lá daquele quadradinho que era o ecrã de uma televisão. Através dela, aprendi a amar o teatro sem nunca ter pisado as tábuas do Parque Mayer; aprendi a decifrar a alma humana através dos seus olhos expressivos.

​Quando ela partiu, levou um pedaço dessa minha infância e juventude, deixando o ecrã mais vazio e o mundo artístico mais pobre. Fiquei tristíssima, com um sentimento de admiração e saudade que o tempo não apaga. Mas a verdade é que nunca se perde aquilo que nos inundou a alma. Aqueles nove anos de cumplicidade silenciosa ficaram gravados em mim.

​Este espaço nasce precisamente dessa urgência em não deixar morrer a memória de quem tanto deu à nossa identidade cultural. Ivone Silva foi uma rainha sem coroa, uma revolucionária na televisão e uma inspiração eterna. Cada palavra que aqui escrevo hoje é apenas um eco desse amor que nasceu diante daquele quadradinho iluminado. Celebramos-te, Ivone. Porque um talento assim nunca se esquece. 






O Legado de Gulbenkian e a Arrogância do Revisionismo

  Há coisas que, por muito que tentemos manter a serenidade, nos reviram o estômago e nos esgotam a paciência. Ouvir o recente episódio do p...