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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Foi Sonho? Ou foi Pesadelo?


  A minha respiração acompanhava a maratona invisível que eu percorria. O cenário à minha volta era um eco fragmentado, construído com aquela familiaridade enganadora que só os sonhos conseguem arquitetar. Eu andava por entre ruas, prédios e bairros de uma cidade que me deixava confusa. Tanto podia ser o Pinhal Novo como Setúbal, ou se calhar... nenhuma das duas. A única certeza que eu tinha, no meio daquela desorientação, era a de que estava em Portugal.

  A angústia deambulava comigo. O meu desespero não tinha um rosto humano; eu não andava à procura de alguém. Andava, sim, desesperadamente à procura do meu carro. A cada quarteirão que virava, a frustração adensava-se. Onde é que eu o tinha deixado? A procura daquele carro era a urgência de encontrar uma saída, de recuperar a minha direção e escapar daquele labirinto de asfalto que parecia não ter fim.

  Durou não sei quanto tempo. Essa busca exaustiva pareceu arrastar-se por uma eternidade, pesando-me nos ombros. Até que, suavemente, o véu daquele labirinto se começou a desfazer.

  Não acordei em pânico, nem de repente. O regresso à realidade aconteceu quase em câmara lenta. As minhas pálpebras abriram-se devagar, dissipando as imagens das ruas distantes. Comecei a olhar para todos os lados, muito lentamente, deixando que os contornos e as sombras do espaço ganhassem forma e nitidez perante os meus olhos.

  Fui absorvendo o ambiente nesse ritmo calmo, até compreender, finalmente, que estava em casa. Senti o apoio macio debaixo do meu corpo e percebi que estava deitada — semi-deitada, na verdade — no meu cadeirão. O toque firme e inconfundível do meu cadeirão reclinável serviu como a minha âncora. Um alívio silencioso e sereno tomou conta de mim ao perceber que estava ali, confortável e segura, no lugar onde escolho dormir há já muito tempo, desde que deixei a minha cama. O labirinto desvaneceu-se, a aflição do carro perdido ficou para trás no sonho, e restou apenas aquela quietude familiar.

  O Meu Limbo Geográfico: Odiar viver na aldeia onde estou e detestar estar fora de Portugal cria-me uma sensação profunda de "não pertença". Não quero estar onde estou, mas o país para onde quereria voltar está mergulhado num pântano de corrupção, exploração de seres humanos e problemas que me revoltam. É exatamente por isso que a cidade do sonho era uma amálgama confusa entre Setúbal e Pinhal Novo. O Portugal do meu sonho não era um refúgio acolhedor, mas sim um labirinto distorcido pela desilusão, onde a minha mente não sabe para onde fugir.

  O Peso da Minha Exaustão Física: O receio de envelhecer e de perder a minha autonomia motora é, sem dúvida, a raiz daquela busca exaustiva pelo meu carro. Uma rotina exigente e as longas noites de trabalho cobram o seu preço ao corpo, e esse desgaste acumula-se. Andar a pé, quilómetro após quilómetro no sonho, sentindo a frustração de não encontrar o carro — que é a minha ferramenta máxima de independência e movimento — é a materialização exata do medo de que as minhas pernas e a minha energia comecem a falhar.

  Ainda assim, e apesar da crueza e da dureza desta realidade que enfrento, há uma mensagem de força que prevalece. No meio da exaustão e da profunda frustração com o mundo, as chaves nunca me caíram das mãos.

  Posso sentir o peso da idade e o cansaço estrutural, mas o facto de continuar a adotar rotinas de exercício físico em casa para manter a minha resistência e força prova que não me entrego ao cansaço. Tenho uma postura ativa e lutadora. O mundo lá fora e a aldeia onde vivo podem não ser os que desejo, mas eu continuo a segurar o controlo da minha independência. O meu cadeirão foi o refúgio perfeito nesse acordar porque é o meu espaço de recuperação, o meu porto seguro onde recarrego baterias para continuar firme ao volante da minha própria vida.

 

 

 

 

sábado, 20 de junho de 2026

O Refúgio do Cadeirão e a Fuga Interrompida

 Acabo de ver o filme mensagens de voz para Isabel(voice mails for Isabelle) a história de uma miúda que perdeu a irmã mais nova para uma terrível doença chamada: fibrose cística. a história começa com ela sentada  num banco de um qualquer jardim em São Francisco, a falar ao telemóvel para o numero da sua já falecida irmã Isabelle. pela primeira vez consegui ver um filme completo sem adormecer no sofá (cadeirão reclinável) enquanto o filme durou eu estava alheada da minha realidade, mas quando o filme terminou e eu tive que encarar de novo a minha realidade, uma nuvem negra de ódio desceu sobre mim. a minha sala de estar... está repleta de lixo, estão dois sacos de lixo pretos cheios no chão da sala há vários dias à espera que eu os leve para o contentor do lixo, a pia de lavar louça está cheia de louça por lavar, a arrecadação está cheia de cestos de roupa lavada à espera que eu dobre e arrume a roupa nos seus devidos lugares, mas o ódio que eu sinto a esta casa é tanto e de tal ordem que eu fico paralisada de ódio e deixo tudo como está evito sair para a rua porque já começo a sentir ódio até das pessoas desta maldita aldeia

 

 

 Crédito de imagem: Gemini

Eu estou tão farta de tudo

  As dores continuam a massacrar-me diariamente e todo o momento. Não sei o que se passa dentro do meu corpo e nem dentro da minha cabeça, a...