O Sabor da Saudade e o Abraço de Inglaterra
Há já vinte anos que a minha vida se construiu longe do sol de Portugal. Quem me conhece sabe que convivo perfeitamente bem com a minha solitude. Encontro paz no silêncio do meu espaço, e a minha rotina hoje faz-se, em grande parte, das noites em que saio para trabalhar no apoio à comunidade, cuidando de quem precisa. Não exijo muito mais do que esta tranquilidade.
Mas o coração humano é um lugar curioso, capaz de guardar intactas memórias que o tempo e a distância não conseguem apagar. De vez em quando, a mente viaja. Viaja para os tempos em que geria A Casa do Galo ou o Bordalo, onde o ritmo era frenético e a vida acontecia à volta de uma mesa. Viaja para aquelas tardes partilhadas com amigas na esplanada do bairro, onde o único pretexto necessário para sair de casa era uma "bica" bem tirada, uma mini a estalar de tão gelada e um prato de caracóis.
A saudade, quando aperta, não é de grandes luxos. É uma saudade profundamente sensorial. Sinto uma falta imensa da nossa couve tronchuda, do amargo bom das nabiças e do conforto dos torresmos. Fecho os olhos e quase consigo sentir o cheiro do carvão, a sardinha assada a pingar no pão e a frescura de uma salada de tomate, pepino, alface e pimentos grelhados. São sabores que contam a história de onde venho, impossíveis de replicar nas prateleiras de um supermercado moderno.
Contudo, que ninguém confunda esta melancolia com ingratidão. Jamais, em momento algum, a minha saudade por Portugal se traduzirá num julgamento ou numa crítica a Inglaterra e ao seu povo.
Nestas duas décadas, o Reino Unido deu-me estabilidade, deu-me teto, deu-me trabalho. Através da minha profissão, tive o privilégio de entrar nas casas e nas vidas dos britânicos nos seus momentos mais vulneráveis, conhecendo a sua essência e humanidade de uma forma muito crua e verdadeira. Ser-lhes-ei eternamente grata por tudo o que me proporcionaram, pelas oportunidades que me ofereceram e pelo respeito com que me acolheram.
No fundo, aprendi que não precisamos de escolher entre quem fomos e quem somos. Posso amar a terra que me viu nascer e chorar de saudade de uma simples couve-galega, enquanto nutro um amor e um respeito inabaláveis pelo país que hoje chamo de casa. E é assim, com um coração dividido, mas em paz, que continuo a minha caminhada.
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