sábado, 16 de maio de 2026

O Pacto do Sangue com a Luz

Tentaram quebrar-me a casca antes mesmo de ser fruto,

Fizeram do meu berço um eco de aço e de luto.

Bateram no peito, na carne, na alma que mal nascia,

Como se o sopro da vida fosse algo que se media.

Mas o corpo, esse templo que eu não compreendo,

Fechou as feridas que o mundo vinha abrindo e trazendo.

​Cresci no escuro, sob o peso do soco e do açoite,

E quando a dor era tanta que chamei pela noite,

Quando eu mesma ordenei ao meu sangue que parasse,

E pedi à minha sombra que de mim se afastasse...

O mistério que me habita disse: "Ainda não."

E segurou o meu sopro na palma da mão.

​Há uma força em mim que não me pertence por inteiro,

Um guardião teimoso, um espírito guerreiro,

Que recusa a cova, que nega o fim do caminho,

Mesmo quando andei na tempestade, a carregar o espinho.

​Não sei por que razão a morte me errou o alvo,

Nem que milagre secreto é este que me mantém salvo.

Só sei que se o próprio abismo não me conseguiu conter,

É porque a minha história ainda tem muito para escrever.



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